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Notas sobre o inferno: vertigo

  • Marcos Nicolini
  • Nov 27, 2021
  • 2 min read

O mal e a mentira têm muitas faces. O inferno é a consequência destas causas múltiplas. Poderíamos dizer que o inferno é o espelho que reflete os efeitos do mal e da mentira. O inferno é o igual, a igualdade da multiplicidade do mal e de sua legitimação e justificativas, as mentiras que os humanos produzem.


Assim, o inferno é o humano deter o olhar no imediato e não encontrar fora dele um lugar de escape. É viver a vida trágica da imanência inelutável e inescapável. É embrenhar-se na entropia: o igual degenerescente.


O inferno é ter fome e sede, estar nu e perseguido como ovelhas dentre lobos...sem que haja um escape, uma voz que transcenda esta mundanidade imanente. Não havendo esta voz, repete-se a violência infernal que produziu a fome, a sede, a nudez, a injustiça...


O inferno é a promessa do presente no futuro com outra máscara: a mentira repetida por outra voz.


O inferno é acordar todos os dias e viver a mesma vida, a vida que lhe é imposta por uma imanência sem fundamento, justificada rizomaticamente. Repetir a existência aprisionada numa linha de produção cujo produto é a sua "vida" a qual serve de matéria-prima para a reprodução da mesma "vida". Sacrificar o futuro num estar em contínua repetição.


O inferno é o espelho do presente que reflete o mesmo presente como espelhos alinhados que reproduzem as mesmas imagens como se estivéssemos num abismo do fechamento do igual: vertigem de vertigem.


O inferno é o eterno retorno do mesmo presente, reflexionante. Refletir e refletir e refletir e refletir...o mesmo, numa circularidade hermenêutica que toma como base a potência infinita e mentirosa de um humano que poderia algum dia quebrar a imagem, o espelho, quando e si dissesse EUREKA!. A hermenêutica é apenas isto: o círculo fechado de espelhos que refletem a imagem presente de si mesmo: a imanência do orgulho.


O inferno é o reflexivo que repete inumeravelmente o infinito.


O inferno é a experiência reflexiva da ausência de futuro, o presente sempre presente numa circularidade infinita de presentes narrados com o fim do narrador.


O inferno é o real, cuja imagética é a utopia de um presente opaco e sem experiência vívida, uma proposição de repetição da repetição: revolução. O homem como lobo do homem, e vice-e-versa.


O inferno é isto? Não! Isto é apenas um pixel deste ecron infernal que sempre passa a mesa

imagem sem imaginação.


O inferno é o capitalismo que transforma tudo em mercadoria e torna tudo o mesmo sob a alcunha da numerabilidade: um corpo = n moedas;

O inferno é o totalitarismo que transforma cada indivíduo em representante de uma classe e uma raça;

O inferno é o homos... em imagem macho=fêmea=macho=fêmea=corpo sem identidade=mesma identidade em qualquer corpo como premissa inquestionável para todxs e todes;

O inferno é a democracia de ideologia única;

O inferno é a religião=religião=religião=...;

O inferno é a cultura do mesmo;

O inferno...tem muitos reflexos de um mal plural cuja legítima é a mentira da pluralidade.



 
 
 

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