Homo faber: o fim do trabalho
- Marcos Nicolini
- Nov 14, 2020
- 2 min read
Eu paro de respirar e em 1, 2...7 minutos deixo de existir: morro.
Preciso, necessito para me manter vivo, biologicamente vivo, de respirar, alimentar-me, beber água.

Mas o mundo resiste a mim, por isso, trabalho. Meu trabalho é uma ação sobre o peso do mundo, sobre a resistência do mundo. Quero conhecer o mundo e, usando suas regras, controlar o mundo, fazê-lo ser propício a mim, ser providencial. Usando suas regras, mantenho-me sob o mundo. O que chamo de liberdade de mundo é compactuar com o mundo a partir de regras, normas, leis que são do mundo e eu estou no mundo. Sou imanente.
O meu estar no mundo, minha imanência tanto me mantém sob o mundo como diante do mundo: ilusão do espelho.
Estar no mundo e diante do mundo o torna complexo, nos complexifica.
O meu trabalho, que é uma contra-resistência subordinada, enquanto ajo contra a resistência do mundo a mim, submeto-me à normatividade do mundo, se faz como fazer dispositivante.
Sou homo faber e como tal meu trabalho produz dispositivos que me permitem alterar a resistência do mundo, o peso do mundo, aliviando-me do mundo, sem retirar-me dele.
Como exemplo posso lembrar que se antes o mar me afastava da ilha e do outro continente, a madeira que flutuava me permitiu vencer esta distância. Contudo vencer a distância significava usar as mãos como remo, até que percebi que utilizar uma outra madeira própria para remar poderia reduzir meu esforço. Mais adiante percebi que uma madeira oca permitia que a flutuação fosse melhorada e mais coisas e pessoas poderiam perfazer a mesma distância. Uma madeira oca e algumas pessoas remando, transportando coisas e pessoas no barco. Mas logo percebi que um mastro e um tecido poderiam usar o vendo como remo e reduzir meu esforço, assim o barco à vela substituiu, progressivamente, os remadores, que agora dispendiam menos esforços, enquanto se permitia ir mais longe e carregar mais pessoas e coisas. Mas o vento deixa de soprar, então inventamos o motor, o qual substituiu a vela, e os barcos puderam ir mais distante. Trocamos o madeiramento por aço e pudemos transportar mais pessoas e coisas por distâncias globais. As tripulações das embarcações foram reduzidas, até que um dia os barcos poderão navegar de maneira autônoma, indo e vindo sem que haja viva alma.
O trabalho do homem é produzir de tal modo a não vir a ter trabalho algum. Se o homem é homo faber então o faber do homo é desumanizá-lo, transferindo o trabalho para o dispositivo. O último dispositivo que o homem fizer é aquele que vai suprimir do homo o faber. O homem sem trabalho, como uma pedra no meio do caminho.



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