Haverá fé no mundo?
- Marcos Nicolini
- Sep 10, 2022
- 5 min read
É uma maldição aprender a ler!
É uma bênção a leitura consciente.
Quando se lê três livros ao mesmo tempo, digo, lê-los e manter a leitura de um quarto pela memória é algo alucinante.
imagina ler Todorov, Gramsci e Lacey, ao som de Schmitt, digo, lendo o Brasil: um quinto livro maldito! Talvez seja obrigado a evocar um quinto livro, herdeiro de Nietzsche, Heidegger, Weiner e Derrida.
Schmitt desfaz o mito de que política é a arte da convivência dos contrários, tão caro à democracia liberal. Radicaliza Maquiavel, Hobbes, Rousseau, Hegel, Marx e diz que política se faz numa relação amigo-inimigo, o que permite Foucault inverter a tese de Klausewitz que diz que a guerra é política por outros meios. Foucault diria: a política é guerra por outros meios. Agamben tomará isto por tese fundante de sua análise. Precisamos verificar se estamos falando de guerra convencional, guerra de guerrilha, ou guerra de terceira geração.
Em Lacey confirmo que o Ocidente, a ciência ocidental se funda basicamente no controle. Toda ladainha de que ciência é conhecimento se torna conto de vigarista, ou seria conto do vigário? Indiferente, quando lemos Benda que chama os intelectuais de Clercs, clérigos. A ciência se resume a adotar uma estratégia (materialista) tal que reduza os entes a fenômenos que sejam heuristicamente redutíveis a um léxico matemático (fazer a riqueza da vida se limitar a dados quantificáveis); tendo feito este trânsito do complexo e incomensurável ao mensurável, produz uma narrativa sobre os dados (não mais sobre as coisas, pois os dados falam dos dados) com vistas a conter os dados em formulários; as coisas reduzidas a fenômenos, os fenômenos a dados, os dados a fórmulas e estas às explicações sobre o mundo, mais do que isto, a produção de mundo. O decaimento da vida à fórmula, aos modelos que passam a gozar do status de único modelo possível para falarmos do mundo. A ciência torna-se um modelamento formular que narra-produz o mundo possível, controlando não apenas as coisas, mas o humano. A ciência participa do projeto Ocidental que a torna guerra por outros meios: do sequestro da vida (decaimento heurístico) e controle dos corpos.
O fim da metafísica, o fim dos metafísicos. A metafísica tem uma morte lenta, gradual e inexorável. A metafísica ainda está viva no ceticismo contemporâneo sob a alcunha de niilismo-critico cuja genealogia pode ser traçada pelos nomes: Descartes (a identificação da racionalidade com o cálculo), Spinoza (o fim da transcendência e o império da imanência), Hume (a crítica ao conhecimento não dado pelos sentidos e o fim da moral como valor transcendente), Kant (a impossibilidade do conhecimento da coisa em si e o império do fenômeno), Nietzsche (Deus morreu, o niilismo metodológico e a vontade de poder), Turgeviev (o niilismo social), etc. Está é uma das faces, a outra é a desumanização que está presente em Robespierre (o terror jacobino, a utopia como violência, o fim da alteridade), Darwin (o humano como um animal entre animais), Marx (a legitimação do assassinato ideológico), Freud (a crítica da razão), Weiner (a indiferença ontológica entre humanidade, animalidade e tecnologia), Foucault (o homem está morto). A cibernética em especial une o niilismo com a desumanização do animal bípede implume. Neste momento o humano torna-se um corpo em meios aos corpos, susceptível de captura pela ciência, como qualquer outro corpo que é reduzido de sua vitalidade ao dado, do dado à informação, da informação à modelagem, do modelo ao controle. Deparamo-nos com a engenharia genética, com os cyborgs, andróides, robôs, indistintamentes.
Como chegamos aí? Com revoluções? Não! Com livros, com jornais, revistas, escolas, leis, cultura. Marx enpueirou-se e Gramsci reprocessou-o sob a alcunha de século XX. Até onde cheguei pude perceber que os escritos de Gramsci não são a elaboração de uma teoria, não são conhecimento sistemático, embora seja um sistema. É uma tecnologia. Gramsci não é um teórico, mas, bípede implume do século XX, é um engenheiro social (como diria Horkheimer, o século XX é o século dos engenheiros). Não escreve sobre conceitos, mas tem um plano de ação é uma agenda que inclui educação, mídia, cultura, etc. Ele não é um cientista, mas alguém que toma os modelos, o formulário e produz mundo, se aplica à produção de dispositivos que controlem os resultados de tal maneira que um mundo advenha da ação desta linha de montagem social, de tal forma que, como determina a ciência materialista e imanentista, não aja saída além da renúncia ou morte: escravidão ou morte.
Já sem conseguir respirar, chego a Todorov. Não sei como que após anos de formação e pós-graduação em cursos sociais me permitiram chegar a este autor, que viveu o horror totalitarista. Penso que o totalitarismo nada mais é do que a aplicação da ciência à sociedade. Não funcionou exatamente por ser uma ciência pura, boa para laboratórios é ruim para as ruas e praças. Tudo o que disse sobre ciência e metafísica é sobre totalitarismo da primeira metade do século XX, quer seja ele fascismo, nazismo ou comunismo (Trotskysta, Leninista, Stalisnista, Maoísta, Castrista, etc). Em seu livro O homem desenraizado, páginas 35 a 39, disseca pornograficamente (a pornografia é a arte de desnudar sem deixar sombras, apresentar o fenômeno de modo ascético, com radical assepcia instrumental, demonstrando que no fundo a penetração do poder é o vazio e que tal ausência exige a violência de um saber nadificante). O totalitarismo é ideológico, terror de estado e o poder como a extensão do um sobre a vida, reduzindo-a aos interesses de um grupo.
Oscilando como um bipolar entre a súplica suicida e o orgasmo místico penso no Brasil destas eleições. Sem a leitura de Schimitt, Lacey, do fim da metafísica, de Gramsci e de Todorov jamais entenderia Alexandre, Barroso, STF, mídia, Lula, Bolsonaro, etc. Vivemos no fim da metafísica do Estado como garantidor do convívio dos diferentes, passamos para um Estado totalitarista gramsciano, em que a violência escancarada se transmuta em resignificações, jogos de palavras, desconstruções, hermenêutica, consequencialismos, etc. Mas que o terror da dissidência, da crítica, do negar-se a subsumir-se num espectro, de dizer contra é o maior dos riscos. Perceber que o Estado de Direito foi assassinado por Lewandowiski, por Barroso, Alexandre, etc. Que a democracia liberal é o mau (não quiz dizer mal, mas reduzir tudo ao maniqueísmo político schmittiano) que deve ser substituída pela democracia totalitária do partido único, ainda que tenha dúzias de nomes (PT, PSOL, PSTU, PCO, PCB, etc) e que tais totalitários vivconluio com seus fake-inimigos, os detentores do poder econômico. Que a existência social se reduzirá a ser elite política corrupta ou elite econômica corruptora. Viver hipocritamente como que ecoando as ideologias do poder e aterrorizando os que ousarem a liberdade, ou lambendo o saco dos ricos.
Por fim me entristece ver a morte da igreja. Estes bastardos que se tornam ativistas de esquerda ou representantes das elites econômicas. Não quero dizer muito sobre tais, escrecências. Lembro-me, apenas, das palavras de alguém por quem tenho amizade e admiração quando disse que já não se importava mais com religião e política, apenas com Libertadores.



Comments