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Da beleza, da alegria e do amor

  • Marcos Nicolini
  • May 29, 2023
  • 2 min read

Está vendo aquela Igreja, moço, fui eu que a construí...


Assim diz a poesia de uma canção que se fez esquecer.


Mas a voz que o poeta gravou não é a de quem construiu apenas com as mãos, com o suor, com arroz e farinha e boletos atrasados sobre a mesa clareada com querosene no meio de uma sala-quarto-cozinha.


Construiu com devoção, com fé, com esperança.


Não aquela que diz, “lhe darei meu trabalho e Vós a salvação”, numa economia nefasta e trágica, violenta e cruel que não fecha a conta, pois não dá conta que dívida não há, mas que reforça e atualiza o impagável. A mesma economia que determina que o pecado conduz ao inferno.


Antes, aquela alegria do canto e da adoração que transforma o prumo em precisão, em canção, em poiesis.


A certeza que o Arquiteto não diferencia e maneja em caixinhas empilháveis, uma sobre as outras como num edifício babélico, nem o engenheiro e nem o peão, mas acolhe amorosamente.


Ali, nesta presença do ausente, na ausência presente não há homem ou mulher, rico ou pobre, intelectual ou analfabeto, branco, negro, índio, asiático, ou qualquer outro que não se reúna pela diferença do amor.


O indizível amoroso que nos fala poeticamente.


Se há uma poesia que me fala é a de Suassuna, quando o Cristo Negro olha a sujidade do coração do filho pródigo e ouve a Mãe que lhe diz: perdoa, pois é o perdão que traduz melhor o amor que Tu És. O Filho olha com o mesmo acolhimento com que acolheu o homem pregado que lhe suplicou, “lembra de mim...”, e não olhando para o peso da Lei que chamam de Justiça, como cálculo de crime-castigo, diz, “onde estão os teus detratores, vá...ser”.


Lembrar é não deixar de esquecer que Ele lembrou de mim quando eu me esqueci de lembrar de amar. Também lembrar de esquecer que o moço que caleja as mãos é filho do mesmo Pai. Também o é aquele que chuta a bola como quem dança uma valsa vienense (e agora José?).


O Cristo Negro de Suassuna não me deixa esquecer de lembrar da arte, do drible da razão, do fazer significativo que ultrapassa estas coisas duras e mecânicas, por meio de um olhar que tem uma mesa posta diante de quem tem fome e sede...de justiça.


Sim, o Cristo Negro da poesia me faz lembrar que o Cristo da Cruz dribla o preconceito e a dureza de uma necessidade: faz do milagre o acolhimento do contrário pela livre vontade do amor.


O Cristo é como um jogador que dribla maliciosamente e graciosamente a dureza das zagas mais inexpugnáveis, rompendo a certeza das táticas e dos exercícios planejados, apenas para nos dar a alegria de dizer: Vini vide e gol! (eu sei que é Veni Vidi, mas como gritar GOL! Sem Vini?)


O Cristo Negro, o jogador Negro e o trabalhador Negro: a beleza do lugar de adoração, de alegria e do amor, contra estes não há Lei.

 
 
 

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