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Colonizar a língua como meio de impor um projeto de poder.

  • Marcos Nicolini
  • Apr 22, 2023
  • 4 min read

Alguém me diz: “não sou ‘o’, não sou ‘a’, sou ‘e’, talvez ‘x’, e você tem que me chamar de ‘e’ ou ‘x’, pois minha identidade, aquilo que determinei para mim como o que sou é expresso como ‘e’ ou ‘x’. Sua linguagem compromissada com uma forma de arcaísmo do poder do patriarcado não se aplica a mim. Portanto, ao se dirigir a mim não diga ela ou ele, mas ele ou elx...ops.”



Eu digo: “ok, você tem o direito de utilizar o dialeto que você escolheu para si, contudo, este não é o meu dialeto e eu tenho o direito de escolher outro que não seja o seu. Escolho falar outra língua que não a sua, assim como um nordestino utiliza um dialeto diferente daquele utilizado pelos paulistas, que difere dos mineiros, que difere dos gaúchos...dos brasileiros que diferem dos portugueses, dos moçambicanos, etc, mesmo quando estão estrangeiro na terra do outro. Por uma consequência de nossos tempos, partilhamos de uma proximidade espacial e digital tal que nossa língua, diferenciada e diferida uma da outra, se encontra e requer de cada um e de todos uma tradução infinita”.


No que tange à linguagem, eu compreendo que ao final de algumas palavras que antes terminavam em “a” ou “o”, se substitua estas vogais por “e” ou por “x”; no que tange ao ser e não-ser, entendo que à identidade binária seja preferido o relativismo niilista de pseudo-identidades plurais e mutantes (uma vez mutante, a identidade é impossível, por isso o “pseudo” que a antecipa); no que tange à exterioridade cosmética, percebo sem espantos as preferências estéticas que contrastam com as minhas; etc. Assim como me dou ao direito de fazer escolhas, sei que outros as tem igual direito, embora ambos tenhamos restrições humanas e lógicas de fazê-lo, igualmente. Diferenciamo-nos a partir de um certo relativismo de escolhas que nos perpassa a todos de maneira similar.


Não obstante tal apreensão, importo-me que queiram impor uma linguagem, uma desindentificação, uma estética, solapar crenças e valores em nome da liberdade de não-ser em detrimento da minha de ser: do deserto niilista no lugar de uma paisagem rica e colorida, como a que diante de mim percebo. Não sou um estrangeiro mais do que o outro o é. Não habito um espaço que lhe pertence e que devo me submeter a seus anti-costumes, vazio-de-valores, contra-linguagens e desconstruções estéticas. Compartilhamos sincronicamente um mesmo aqui, neste que somos todos estrangeiros, como que vivêssemos um período babélico no qual o mundo se desfaz pela confusão de línguas concorrentes. Somos todos eschatos de uma mesma escatologia crítica.


O desafio não se impõe por conta da multiplicidade de línguas, de modos de falar, mas de um projeto metafísico e de poder que quer impor à todos o modo de alguns, em nome do fim da metafísica e do poder. O hábito de haver um centro do poder se mantém vigorosamente, agora instanciado em um outro dialeto, que quer ser a língua da nova Babel. Inspirado em Nietzsche me vem a imagem de que os ressentidos de uma escravidão prolongada agora querem tomar o poder pela violência e por a funcionar as novas guilhotinas. Não é uma nova ordem que se quer, mas a antiga exercida por aqueles que, ressentidos, odeiam os que não se desindentificam como eles. Uma nova imunização: eliminação-exclusão e inclusão por meio da violência linguística. Uma nova necro-política, uma necrópoles de revitalização de Babel: um eterno retorno ao mesmo lugar.


Mas, tendo a ser cristão, cosmopolita e laico. Tendo a dar crédito aos valores referenciados em Jesus Cristo e nos escritos daqueles que foram impactados por sua vida e palavras, que me conferem identidade e significado existencial, sentido para tal existência e modo de estar no mundo; habito num tempo e num lugar em que todos somos estrangeiros (pós-babélicos e, para alguns pré-babélicos em valores, crenças, hábitos, modos, culturas, linguagem, etc.) e que requer de cada um de nós que busquemos estar diante um do outro em tolerância, hospitalidade e convivência amistosa; entendo, de modo crítico, que nossa sociedade (o composto das relações complexas e mutantes entre indivíduos, grupos e instituições) optou por um relativismo niilista cujas relações se dão pelo cálculo de poder e que as estruturas relacionais são hierarquizadas por meio de violência e não por diálogo neutro em busca do bem-comum e justiça tensionada entre retribuição, distribuição e equidade.


Assim, lembrando de minhas aulas de filosofia nas quais aprendi sobre o princípio de caridade, cada vez que em seu dialeto você disser “Presidenta”, eu ouvirei e direi em meu dialeto “Presidente”; cada vez que você disser “boa noite a todas, todes, todos e todxs” (preferi a sequência em ordem alfabética, esta prática arbitrária de algum poder de algum linguísta arcaico), eu ouvirei em me expressarei dizendo “boa noite a todos”; cada vez que você disse “bem vindas, bem vindes, bem vindos e bem vindxs”, eu escutarei e me pronunciarei dizendo “bem vindos”; etc. Acolherei e hospedarei em mim a seu dialeto, assim como espero ser acolhido e hospedado caridosamente por você.


Compreendo e hospedo em mim a escolha que você fez quanto ao seu dialeto, contudo, este não é o meu dialeto. Continuarei a me expressar usando o dialeto que tenho em mim, fruto de meu passado, de minhas escolhas valores resultantes de minhas crenças e do sentido que ofereço à minha existência. Gosto de ouvir os nortistas, os nordestinos, os cariocas, os goianos, os mineiros, os gaúchos, os portugueses e aqueles estrangeiros de países que não falam o português e que se esforçam por serem entendidos por nós. Gosto do modo com que falam pessoas de outros bairros e que adotam um dialeto tão estrangeiro a mim que tenho dificuldade de entende-los, mas lhes dou toda atenção e esforço cognitivo. Gosto de todos, mas em particular prefiro, para mim, minha própria língua e meu ethos.


Espero ter sido claro a todos e a estes me dirijo com caridade.

 
 
 

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