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Cadê o Pai para pagar o cartão de crédito

  • Marcos Nicolini
  • Oct 16, 2021
  • 3 min read

Então o papai estava sentado no meio da sala, em sua poltrona como um Pankrator no mais elevado do cosmos, e como quem faz vir do nada o tudo contempla sua obra. Deste lugar sublime viu seu filho cabisbaixo passar do banheiro à cozinha.



Nestes tempos o Pai enfrentava problemas sérios com a Mãe e via os filhos penderem para o lado de lá. Ficou pensando como poderia reverter esta situação e manter a influência e expandir certo poder sobre os rebentos, de tal modo que numa eventual ruptura no casamento, poderia garantir o apoio da prole.


O Pai de muito já mantinha relações íntimas com mulheres que disponibilizavam favores sexuais ilimitados em troca de trocos, dependendo dos limites ultrapassados. Lindas mulheres mas que não tinham o costume de tomar banho.


Os ganhos em pseudo-trabalhos, como ilusionista, já não davam conta dos gastos como as meninas, as bebidas e a Mãe com seus filhos. Contudo, pensava em um modo de manter os filhos sob sua influência. O que sabia fazer? Ilusionar, é claro!


Chamou o Filho e lhe disse: “meu querido filhinho, vejo que você tem grande potencial e pode fazer muito mais do que faz, que é caminhar entre o banheiro e a cozinha. Vou lhe dar um presente, este cartão de crédito.” Assim foi e o Filho foi presenteado com um cartão de crédito com seu nome: Criatura Gerada por um Pai ilusionista.


Neste ínterim a Mãe descobriu as meninas que custavam caro mas não compravam sabonete e as bebidas que faziam esquecer a incompetência e a falência que se avizinhava. Foi a juiz e pediu o divórcio.


Muitos podres vieram à tona: as ilusões não apenas lesaram a Mãe como a muitos. Não adiantava as histórias contadas pelos amigos deste Pai, estes que viviam de ler revistas pornográficas e contar histórias em bares que cheiravam perfume barato e pinga. Coitada (nos dois sentidos da palavra) das meninas, não tinham mais recursos para comprar nem pão com mortadela!


A Mãe se casou com outro homem, um valentão que fazia muito barulho, mas era da turma do Bar e frequentava outras casas com luzes vermelhas (isto foi antes da internet, quando havia bairro com casas de luzes vermelhas e sem chuveiros). Este valentão era omissão de dar porrada e enfrentar os inimigos. Era a época que a rua da esquerda vivia em pé de guerra com a rua da direita. A gangue de lá existia por conta da existência da gangue de cá que existia por conta da gangue de lá. Por vezes um grupo vencia a luta e por outras perdia. Eles não se matavam, pois seria suicídio.


Passado o tempo chegou o boleto do cartão de crédito. O filho olhou aquele numerão e foi até o padrasto e lhe disse: eis o boleto do cartão de crédito que meu Pai me deu, você tem que pagá-lo, já que você é o novo marido de minha Mãe. O padrasto perguntou a Filho do outro Pai: o que você fez com os recursos que estavam no cartão? Montou um negócio? Comprou mercadorias para revendê-las? Produziu algo com valor agregado? Pegou da mão do Filho do Pai e viu que nas contas do cartão de crédito apenas tinha bebidas e meninas.


O quiproquó foi enorme. O padrasto ficou horrorizado e jurou espancar meia-dúzia. A Mãe chorando dizia: “por favor pague a conta do meu filhinho”, enquanto pensava se não era melhor um bêbado traíra do que um homem violento. O Filho gritava: nos dias de meu Pai isto não acontecia, eu podia me divertir e esquecer do dia de amanhã!” E o padrasto colocando a mão na cabeça pensava: “como desfarei deste nó górdio? Pagar a conta não consigo, viver sem alguém que lave minhas cuecas e frite o meu ovo não quero."


Enquanto isto na rua, diante da porta da casa, as meninas gritavam e xingavam, jogando absorventes sujos nas janelas da residência, ao lado do dono do bar que, agora falido, suspirava pelos anos que vendia cachaça à preço de whisky.

 
 
 

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