Assim falou João: Apocalipse da Babilônia
- Marcos Nicolini
- Dec 5, 2020
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Dei risada sozinho, agora.
Corri e comecei a teclar, como aquela música em que o autor tocado pela musa corre para o violão, lamento.

Lembrei-me que alguém me chamou de narcisista.
Ri disto de maneira profanatória, pois apenas deus pode olhar para o que está desnudo e não enlouquecer.
Já fui chamado de ensimesmado, em outro momento.
Também ri com certa parcimônia.
Mas não é disto de que gargalhei agora.
Ri como um anti-Zaratrusta, que despreza aquilo por que o louco alemão se apaixonou.
Em minha risada escandalosa, imaginei-me em uma conversa com um conhecido meu, pastor.
Talvez este pastor seja eu mesmo em tempos passados, dos quais não guardo saudades.
Que em nossa troca de palavras, ele me dizia que eu sou um delirante.
Dizia-lhe, em retruco, que Joãos sempre deliram, quem não delira é Daniel.
Daniel, vivendo na Babilônia, anteviu coisas que deveria dizer com cuidado, a fim de não perder a cabeça.
Faltou-lhe, talvez a coragem, talvez o tempo oportuno pelo qual o sábio aguarda, talvez faltou-lhe o desprezo pelos privilégios que gozava.
Joãos olhavam para a Babilônia ao longe, certos que já haviam perdido a cabeça.
Jesus falando de um certo João disse que dos nascidos de mulher até ele, ninguém é superior a este de quem falava.
A este João não lhe faltou a coragem diante da decapitação, a sabedoria de identificar no Kronos o Kairós e o desprezo pelo poder.
João, o da ilha, olhou a Babilônia e viu uma Grande Meretriz.
Ousou expô-la ao apocalipse.
Apocalipse é desnudamento, mas não qualquer desnudar, antes, é ver as imundícias de um meretriz: sua sujeira, suas doenças, sua materialização, sua ausência de alma e sua carne feita carne de porco de açougue, a qual se paga para se tornar imundo.
O apocalipse de João é o desnudar da Grande Meretriz.
Olhar o oculto é de perder a cabeça, enlouquecer, perder da escrita a possibilidade da clareza.
Mas João não abaixou os olhos, mirou a intimidade fétida da Meretriz.
Seus amantes chamou de Anti-Cristo, a Besta e o Falso Profeta.
Em delírios decorrentes da risada inflamada e incontida, falei ao meu amigo pastor, meu íntimo mais íntimo, que me trai e me esfaqueia pelas costas:
A Besta é a unidade daqueles que pregando Momon, dizem a prosperidade e a riqueza são o Reino de Deus, que o Pai se torna obrigado, por fidelidade às suas promessas, obrigado a dar aos crentes que semeiam;
O Anti-Cristo é a unidade daqueles que pregam Marx, dizem que a política e o Estado são o Reino de Deus, que a igualdade do Pai com o Filho, do eterno e do temporal, do homem com o seu próximo é a verdade dos evangelhos;
O Falso Profeta é aquele que olhando o tempo, miram o passado, as cerimônias, os ritos, os dogmas, a moral, a lei e dizem que o Reino de Deus é cultivar tais coisas e aguardar o retorno do Cristo que já se manifesta na instituição.
Ri! Ri! Ri!
Gargalhei e escrevi, ainda sobre o impulso da loucura do olhar impossível.
Agora estou chorando descontroladamente.
Coisa de louco que pensa ter visto o que não se pode ver sem perder a cabeça.
Ai de mim...



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